quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"Este é tempo de partido,

tempo de homens partidos.


Em vão percorremos volumes,

viajamos e nos colorimos.

A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.

Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.

As leis não bastam. Os lírios não nascem

da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.


Visito os fatos, não te encontro.

Onde te ocultas, precária síntese,

penhor de meu sono, luz

dormindo acesa na varanda?

Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo

sobe ao ombro para contar-me

a cidade dos homens completos.


Calo-me, espero, decifro.

As coisas talvez melhorem.

São tão fortes as coisas!


Mas eu não sou as coisas e me revolto.

Tenho palavras em mim buscando canal,

são roucas e duras,

irritadas, enérgicas,

comprimidas há tanto tempo,

perderam o sentido, apenas querem explodir."


(Nosso Tempo - Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Existem tantas coisas para serem ditas e que, no entanto, nunca serão ditas.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A gente se acostuma...

A gente se acostuma a morar em apartamento dos fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.

E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir as cortinas e a acender a luz mais cedo.

E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar sobressaltada porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo na viagem. A comer qualquer coisa porque não dá tempo para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A dormir pesado sem ter vivido o dia...

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: "hoje não posso ir"... A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando mais precisava ser visto...

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e necessita. A ganhar menos do que precisa e a fazer fila para pagar. A pagar muito mais do que as coisas valem. A saber que cada vez pagará mais e a procurar mais trabalho para ganhar mais dinheiro para como pagar as contas.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial. Às bactérias da água. À contaminação do mar. À morte lenta dos rios. A não ouvir passarinhos, a não ter galo da madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando de uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.

E, se no fim de semana não há muito a fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre o sono atrasado. A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que de tanto se acostumar, se perde de si mesma.

(Não sei de quem é a autoria do texto, mas é sensacional)